sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A porta

Sempre que abria aquela porta, certo seria que com ela se perdia um pouco da minha vida. 

Do outro lado o tempo passa, ou pelo menos assim mo quer fazer crer o relógio que se encontra autoritário no pilar do centro. Olho para os ponteiros e pela primeira vez na vida sinto-me melindrado por conseguir sentir finalmente o tempo. Tempo que se limita simplesmente a Ser, e a sê-lo comigo. E todo o meu ser se esgota por cada pequena parte dele que passa.

Sempre que transponho aquela porta, deixo de entender o que ela divide. Esta dor dissimula em mim um desnorte que me faz perguntar se estou finalmente dentro ou fora de algo que me esforço por compreender. Percebo por fim que não é o espaço, nem o tempo que passo em ambas as margens, percebo sim, finalmente, que é a mim que esta porta divide.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Metamorfose Urbana I


Exausto sento-me naquele lugar da carruagem. Mais uma decisão na minha vida que firmei por motivo algum em particular. Talvez tenha até aferido sobre qual seria a minha preferência, entre a panóplia de experiências de viagens em diferentes lugares de carruagens como esta, discussão inconsciente que certamente ocorreu em paralelo com outra qualquer e provavelmente numa sala alheia à dos meus desejos mais imediatos, mas como em tantas outras decisões o meu Inconsciente pura e simplesmente me quis ali… encostado à janela, e, como em tantas outras visitas a carruagens como esta, de costas para o sentido do movimento de mais um comboio, no fim de mais um dia.
Entorpecido encosto a cabeça ao vidro e assim que se sustem o movimento do meu corpo, sujeito agora apenas aos solavancos dos carris, sou invadido novamente por tudo aquilo que me sufoca e me absorve. Aquelas vozes incansáveis e impossíveis de emudecer que nos tentam mostrar que grande parte do nosso ser é tudo menos imutável e que este se deixa lapidar de uma forma exagerada pela vida que levamos ou que nos fazem levar, mesmo que isso nos atormente. Senti-mo-nos paradoxalmente sós e presos a este viver comum, mas ao mesmo tempo convergimos no limite para este Ser único, esta consciência que a cada um de nós, egoístas criaturas, liga a todas as outras, eternas responsáveis.
Continuo assim a viagem, embriagado pelos propósitos da minha própria existência, por tudo o que me faz ser quem sou e por tudo o que me obriga a viver assim mesmo que não o queira, e de repente algo me desperta e me trás para fora de meus pensamentos. Algo no vidro. Deixo de conseguir ouvir as súplicas e de registar as quasi-talmúdicas discussões entre as “animadas” faces do meu sub-consciente. Permaneço ali, atónito perante aquela imagem. Todo o meu intelecto emerge deste transe envenenado e concentra-se naquela imagem que me acorda de traços tão (naturalmente) familiares. Olho assim o meu reflexo na janela deste comboio e permaneço assombrado por simplesmente já não o conhecer.