Caminhava entre gigantes de betão, firme, de queixo levantado contemplando a sua grandeza. Parados como estacas, acentes sobre firmes bases, moviam-se pelo espaço, olhando para os pequenos seres que caminhavam a seus pés. O padrão de luz e escuridão, emitida por cada janela, deixava transparecer o seu interior, dividido em pequenas fracções, as quais eram contidas por modos de vida. Imaginava o reboliço conjunto de tal emaranhado, descansando e ofegando, transpirando a sua uniformidade. Um céu azul como o mar, fazia com estes ganhassem vida no contorno das estrelas, as árvores balouçavam ao sabor do vento, quase que beijando a sua pele rispida e fria. Consegui aperceber-me da infinidade do horizonte, uma infinidade construída por estes, e destruída por nós. Senti que caminhava sozinho por enormes planaltos ímateriais, por uma imensidão vivida na clausura das paredes, que não deixam transparecer aquilo que realmente somos no nosso interior. Raras são as vezes que algo tão mono, me despertou tamanha leveza. Foi então que ao chegar à porta, ouvi alguém num tom reprovador fazer "Psht!", ao que uma pequena criança de olhar apaixonado responde "Vai para o caraças!", o pai indignado com tal resposta diz "Deves queres levar!", e lança um olhar desorientado à sua volta como quem não tem controle da situação, pensando que teria sido esmagado por um gigante criado por si.
Corajosos Argonautas
terça-feira, 1 de maio de 2012
Laranja Mecânica
Noite longa de conversas e divagações, estava eu pensando em Freud, quando o verdadeiro assunto da conversa era o budismo. Ao pensarmos numa laranja, imaginamos o seu sabor, a sua cor, a textura, mas nunca o seu significado, e influência que tem no mundo. Um simples conjunto de gomos, frutificado liquido, envolvido pela acidez de sua casca. Deveria-mos de olhar para a laranja não só como um fruto, mas interpretando o significado da sua existência. Qual será o seu significado? Depara-mo-nos com esta encruzilhada, na penumbra da noite, uma laranja cai de sua árvore, estilhaçando as folhas secas que cobriam o chão, no silêncio conversa-se e divaga-se, uma hora depois, de uma laranja ser significando de conversa, teria tido significado ou nenhum, o momento em que a ironia esboçou o seu sorriso.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
A porta
Sempre que abria aquela porta, certo seria que com ela se perdia um pouco da minha vida.
Do outro lado o tempo passa, ou pelo menos assim mo quer fazer crer o relógio que se encontra autoritário no pilar do centro. Olho para os ponteiros e pela primeira vez na vida sinto-me melindrado por conseguir sentir finalmente o tempo. Tempo que se limita simplesmente a Ser, e a sê-lo comigo. E todo o meu ser se esgota por cada pequena parte dele que passa.
Sempre que transponho aquela porta, deixo de entender o que ela divide. Esta dor dissimula em mim um desnorte que me faz perguntar se estou finalmente dentro ou fora de algo que me esforço por compreender. Percebo por fim que não é o espaço, nem o tempo que passo em ambas as margens, percebo sim, finalmente, que é a mim que esta porta divide.
terça-feira, 12 de julho de 2011
Metamorfose Urbana I
Exausto sento-me naquele lugar da carruagem. Mais uma decisão na minha vida que firmei por motivo algum em particular. Talvez tenha até aferido sobre qual seria a minha preferência, entre a panóplia de experiências de viagens em diferentes lugares de carruagens como esta, discussão inconsciente que certamente ocorreu em paralelo com outra qualquer e provavelmente numa sala alheia à dos meus desejos mais imediatos, mas como em tantas outras decisões o meu Inconsciente pura e simplesmente me quis ali… encostado à janela, e, como em tantas outras visitas a carruagens como esta, de costas para o sentido do movimento de mais um comboio, no fim de mais um dia.
Entorpecido encosto a cabeça ao vidro e assim que se sustem o movimento do meu corpo, sujeito agora apenas aos solavancos dos carris, sou invadido novamente por tudo aquilo que me sufoca e me absorve. Aquelas vozes incansáveis e impossíveis de emudecer que nos tentam mostrar que grande parte do nosso ser é tudo menos imutável e que este se deixa lapidar de uma forma exagerada pela vida que levamos ou que nos fazem levar, mesmo que isso nos atormente. Senti-mo-nos paradoxalmente sós e presos a este viver comum, mas ao mesmo tempo convergimos no limite para este Ser único, esta consciência que a cada um de nós, egoístas criaturas, liga a todas as outras, eternas responsáveis.
Continuo assim a viagem, embriagado pelos propósitos da minha própria existência, por tudo o que me faz ser quem sou e por tudo o que me obriga a viver assim mesmo que não o queira, e de repente algo me desperta e me trás para fora de meus pensamentos. Algo no vidro. Deixo de conseguir ouvir as súplicas e de registar as quasi-talmúdicas discussões entre as “animadas” faces do meu sub-consciente. Permaneço ali, atónito perante aquela imagem. Todo o meu intelecto emerge deste transe envenenado e concentra-se naquela imagem que me acorda de traços tão (naturalmente) familiares. Olho assim o meu reflexo na janela deste comboio e permaneço assombrado por simplesmente já não o conhecer.
Subscrever:
Comentários (Atom)